Inaugura-se, em Trump 2.0, uma inflexão relevante na política dos Estados Unidos para a América Latina. Nela, a relação bilateral deixa de ser mero instrumento de projeção global e passa a funcionar como engrenagem central da agenda interna trumpista, sob uma aguerrida disputa de diferentes grupos ideológicos. Neste segundo mandato, a dimensão doméstica deixa de ser apenas elemento legitimador e passa a ocupar um lugar estruturante e prioritário. A política para o hemisfério não é mais aquela que busca consenso internacional para agir conforme as normas, sejam elas tácitas ou não. O objetivo é servir diretamente à mobilização interna, à guerra cultural e ao cálculo eleitoral permanente.
A historiografia da política externa dos Estados Unidos mostra que fatores domésticos sempre foram importantes para compreender a relação com a América Latina, ainda que com pesos variáveis ao longo do tempo. Da Doutrina Monroe, no século XIX, às intervenções da Guerra Fria, o plano interno forneceu, frequentemente, justificativas para ações externas expansionistas. O contexto atual se distingue, porém, pela intensidade e pela centralidade inéditas atribuídas à política doméstica em um cenário de polarização extrema e de ausência de consensos político-partidários nos Estados Unidos.
Em Trump 2.0, essa dinâmica se transforma e se aprofunda, trazendo uma mudança informal de regime decisório. Esta é marcada, como veremos, por centralização, personalismo e enfraquecimento dos contrapesos institucionais. A política externa passa a ser pensada como uma extensão direta da política doméstica, operando como instrumento de coesão simbólica e compensação, em meio a uma crise democrática interna marcada por erosão de direitos, desconfiança institucional, radicalização política e desilusão com a promessa do Sonho Americano que não chegou – nem chegará. A América Latina reaparece, assim, como espaço privilegiado para projeção de força de baixo custo político e alto retorno discursivo junto à base eleitoral trumpista.
Esse movimento pode ser lido, entre outros caminhos teóricos pertinentes, à luz da chamada Teoria Diversionista da Guerra. Sob essa lente interpretativa complementar, entendemos como governos fragilizados internamente – com alta desaprovação popular, contestações nos tribunais e nas ruas – tendem a externalizar conflitos como forma de desviar atenções, blindarem-se de escândalos (como o “Epstein Files”) e recompor apoio político.
Ao contrário de intervenções do passado voltadas para a projeção global de poder, o endurecimento atual em relação à América Latina parece responder, sobretudo, à necessidade de proteger e reforçar uma agenda ultraconservadora desafiada no plano doméstico — inclusive por segmentos que haviam aderido ao trumpismo, circunstancialmente, nas eleições de 2024.
A publicação da Estratégia de Segurança Nacional de 2025 (NSS, na sigla em inglês) já havia explicitado essa lógica. Observada empiricamente, ela foi tornada clara com o golpe na Venezuela, as ações unilaterais adotadas sem autorização do Congresso e a retórica securitária que conecta e traduz “fronteira”, “drogas” e “caos regional” como ameaças aos EUA. A lógica do Executivo trumpista não se reverteu, ela se acentuou.
O documento abandona retóricas tradicionais de promoção da democracia e valores universais e trata o chamado Western Hemisphere como espaço funcional para a consecução dos interesses domésticos dos Estados Unidos. A região é apresentada, simultaneamente, como mercado, fonte de matérias-primas e recursos estratégicos, assim como zona de projeção militar de rápida mobilização, favorecida pela proximidade geográfica e pela assimetria de poder de todo tipo. Esta ainda é uma vantagem incomparável dos EUA no continente.
No mesmo documento, a América Latina é enquadrada como foco de caos e ameaça — migração, tráfico de drogas e instabilidade política —, convertendo-se no “inimigo conveniente” para consumo doméstico. Trata-se de um repertório historicamente familiar ao público estadunidense, em especial, na associação entre fronteira e ameaça, o que facilita sua instrumentalização política. A novidade está em sua vocalização aberta, desinibida e assumidamente voltada para a mobilização interna.
O cálculo eleitoral é central nesse processo. Neste ano de eleições de meio de mandato (midterms), o governo Trump busca transformar a política para a América Latina em ativo eleitoral de curto e médio prazo. A importância estratégica da Flórida, a mobilização do voto latino conservador e o endurecimento retórico e prático contra países como Cuba e Venezuela compõem esse quadro. No caso venezuelano, contudo, os riscos de efeito reverso são elevados, dado o baixo apoio popular a uma escalada mais agressiva e o atendimento preferencial a interesses de facções ideológicas específicas do núcleo trumpista.
Esse novo padrão decisório também se caracteriza por maior centralização, personalismo e desinstitucionalização, com recorrente bypass do Congresso em temas sensíveis, como tarifas e ações militares. A Casa do Povo se torna, em certa medida, funcionalmente irrelevante. A política externa passa a operar pelas preferências e agendas de um círculo fechado, no qual o ingresso se dá por meio da lealdade pessoal (a Trump) e ideológica (ao projeto MAGA). Passa, com isso, a reproduzir e reforçar a narrativa doméstica, integrando-se à guerra cultural em curso, tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos. ![]()