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Trump 2.0 e América Latina: política externa como política doméstica

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Trump 2.0 e América Latina: política externa como política doméstica

ARTICLES 08 de janeiro de 2026
Trump 2.0 e América Latina: política externa como política doméstica

Dossiê “Trump 2.0 e o golpe na Venezuela 

Inaugura-se, em Trump 2.0, uma inflexão relevante na política dos Estados Unidos para a América Latina. Nela, a relação bilateral deixa de ser mero instrumento de projeção global e passa a funcionar como engrenagem central da agenda interna trumpista, sob uma aguerrida disputa de diferentes grupos ideológicos. Neste segundo mandato, a dimensão doméstica deixa de ser apenas elemento legitimador e passa a ocupar um lugar estruturante e prioritário. A política para o hemisfério não é mais aquela que busca consenso internacional para agir conforme as normas, sejam elas tácitas ou não. O objetivo é servir diretamente à mobilização interna, à guerra cultural e ao cálculo eleitoral permanente. 

 

A historiografia da política externa dos Estados Unidos mostra que fatores domésticos sempre foram importantes para compreender a relação com a América Latina, ainda que com pesos variáveis ao longo do tempo. Da Doutrina Monroe, no século XIX, às intervenções da Guerra Fria, o plano interno forneceu, frequentemente, justificativas para ações externas expansionistas. O contexto atual se distingue, porém, pela intensidade e pela centralidade inéditas atribuídas à política doméstica em um cenário de polarização extrema e de ausência de consensos político-partidários nos Estados Unidos. 

 

Em Trump 2.0, essa dinâmica se transforma e se aprofunda, trazendo uma mudança informal de regime decisório. Esta é marcada, como veremos, por centralização, personalismo e enfraquecimento dos contrapesos institucionais. A política externa passa a ser pensada como uma extensão direta da política doméstica, operando como instrumento de coesão simbólica e compensação, em meio a uma crise democrática interna marcada por erosão de direitos, desconfiança institucional, radicalização política e desilusão com a promessa do Sonho Americano que não chegou – nem chegará. A América Latina reaparece, assim, como espaço privilegiado para projeção de força de baixo custo político e alto retorno discursivo junto à base eleitoral trumpista. 

 

Esse movimento pode ser lido, entre outros caminhos teóricos pertinentes, à luz da chamada Teoria Diversionista da Guerra. Sob essa lente interpretativa complementar, entendemos como governos fragilizados internamente – com alta desaprovação popular, contestações nos tribunais e nas ruas – tendem a externalizar conflitos como forma de desviar atenções, blindarem-se de escândalos (como o “Epstein Files”) e recompor apoio político.  

 

Ao contrário de intervenções do passado voltadas para a projeção global de poder, o endurecimento atual em relação à América Latina parece responder, sobretudo, à necessidade de proteger e reforçar uma agenda ultraconservadora desafiada no plano doméstico — inclusive por segmentos que haviam aderido ao trumpismo, circunstancialmente, nas eleições de 2024. 

 

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUAA publicação da Estratégia de Segurança Nacional de 2025 (NSS, na sigla em inglês) já havia explicitado essa lógica. Observada empiricamente, ela foi tornada clara com o golpe na Venezuela, as ações unilaterais adotadas sem autorização do Congresso e a retórica securitária que conecta e traduz “fronteira”, “drogas” e “caos regional” como ameaças aos EUA. A lógica do Executivo trumpista não se reverteu, ela se acentuou. 

 

O documento abandona retóricas tradicionais de promoção da democracia e valores universais e trata o chamado Western Hemisphere como espaço funcional para a consecução dos interesses domésticos dos Estados Unidos. A região é apresentada, simultaneamente, como mercado, fonte de matérias-primas e recursos estratégicos, assim como zona de projeção militar de rápida mobilização, favorecida pela proximidade geográfica e pela assimetria de poder de todo tipo. Esta ainda é uma vantagem incomparável dos EUA no continente. 

 

No mesmo documento, a América Latina é enquadrada como foco de caos e ameaça — migração, tráfico de drogas e instabilidade política —, convertendo-se no “inimigo conveniente” para consumo doméstico. Trata-se de um repertório historicamente familiar ao público estadunidense, em especial, na associação entre fronteira e ameaça, o que facilita sua instrumentalização política. A novidade está em sua vocalização aberta, desinibida e assumidamente voltada para a mobilização interna. 

 

O cálculo eleitoral é central nesse processo. Neste ano de eleições de meio de mandato (midterms), o governo Trump busca transformar a política para a América Latina em ativo eleitoral de curto e médio prazo. A importância estratégica da Flórida, a mobilização do voto latino conservador e o endurecimento retórico e prático contra países como Cuba e Venezuela compõem esse quadro. No caso venezuelano, contudo, os riscos de efeito reverso são elevados, dado o baixo apoio popular a uma escalada mais agressiva e o atendimento preferencial a interesses de facções ideológicas específicas do núcleo trumpista. 

 

Esse novo padrão decisório também se caracteriza por maior centralização, personalismo e desinstitucionalização, com recorrente bypass do Congresso em temas sensíveis, como tarifas e ações militares. A Casa do Povo se torna, em certa medida, funcionalmente irrelevante. A política externa passa a operar pelas preferências e agendas de um círculo fechado, no qual o ingresso se dá por meio da lealdade pessoal (a Trump) e ideológica (ao projeto MAGA). Passa, com isso, a reproduzir e reforçar a narrativa doméstica, integrando-se à guerra cultural em curso, tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos. 

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