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Entre O Pragmatismo e a Competição Hegemônica: Um Olhar do Brasil Sobre a Governança De Xi Jinping

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Entre O Pragmatismo e a Competição Hegemônica: Um Olhar do Brasil Sobre a Governança De Xi Jinping

ARTICLES 07 de janeiro de 2026
Entre O Pragmatismo e a Competição Hegemônica: Um Olhar do Brasil Sobre a Governança De Xi Jinping

1 O Desenvolvimento da China e o Debate Geopolítico Global

 

A emergência recente da República Popular da China (RPC) no sistema internacional intensificou debates sobre o futuro de seu modelo de desenvolvimento, sustentado pela estrutura política marxista-leninista, pela centralidade organizativa do Partido Comunista Chinês (PCC) e pela crescente mercantilização da vida social. Em contraste com as expectativas clássicas da teoria da modernização — como as de Lipset, Huntington, Moore, Rostow e Parsons — o crescimento econômico chinês não levou ao enfraquecimento do PCC, mas reforçou sua legitimidade e consolidou um Estado robusto. Esse arranjo institucional singular, moldado por experiências anti-imperialistas desde o século XIX e institucionalizado em 1949, mostrou resiliência mesmo após o colapso soviético, projetando a China como referência potencial para países da periferia do sistema mundial.

 

A combinação entre um sistema político centralizado e uma forte integração econômica despertou desconfiança no Ocidente, sobretudo nos Estados Unidos, que passaram a ler a ascensão chinesa como uma ameaça estratégica após o “pivot para a Ásia” (2011) e sua ampliação por meio da estratégia Indo-Pacífica. Tensões em Hong Kong, Taiwan, Xinjiang, somadas a conflitos tecnológicos e comerciais, intensificaram a contenção norte-americana. Esse cenário se desenvolve em meio ao deslocamento do eixo de acumulação mundial para a Ásia, com a China como “centro articulador” da economia global, um fenômeno sem precedentes por envolver a ascensão de um país não europeu e de um povo não branco ao centro do sistema internacional.

 

A trajetória ideológica dos Estados Unidos — marcada pelo Destino Manifesto e por narrativas de excepcionalismo, contribui para a expectativa de que o mundo adote princípios liberais, enquanto, para a China, a intervenção externa historicamente representou ameaça e humilhação (Mitter; Johnson, 2021). A persistência do anticomunismo norte-americano, alimentado desde o macarthismo e reforçado pelo Memorando Powell (1971), consolidou o imaginário da “ameaça chinesa”, sobretudo após Tiananmen (1989). Esse quadro sustentou políticas de contenção que refletem consenso bipartidário, ancoradas na ideia de que modernização econômica deveria resultar em democratização liberal, expectativa reiteradamente frustrada pela legitimidade interna do socialismo com características chinesas.

 

A crise financeira de 2008 e o crescimento chinês na Ásia-Pacífico intensificaram temores de revisão da ordem liberal, levando analistas ocidentais a recorrer a categorias como equilíbrio de poder, Guerra Fria ou “Armadilha de Tucídides”. Contudo, tais categorias, enraizadas em tradições greco-romano-cristãs, não se aplicam mecanicamente à experiência chinesa, cuja história e cultura moldam lógicas distintas de organização política (Zhang; Mcghee, 2017). Por isso, mesmo diante de pressões externas e de contenção estratégica, a China insiste na construção de uma ordem internacional democrática, baseada nos princípios da Carta da ONU e nas Iniciativas Globais de Desenvolvimento, Segurança, Civilização e Governança.

 

2 A “Era Sem Precedentes” e a Reconfiguração Institucional sob Xi Jinping

 

A atual emergência da China ganha nova projeção com o protagonismo político de Xi Jinping, cuja liderança é frequentemente comparada à de Mao Zedong e Deng Xiaoping. Desde 2012, o PCC caracteriza o período atual como “Uma Era sem Precedentes”, afirmando que a China se encontra sem precedentes próxima do centro do sistema internacional e mais próxima da revitalização nacional (XINHUANET, 2015). As “três conclusões científicas sem precedentes” sustentam essa leitura ao indicar que o país se desloca da periferia para o centro do sistema mundial, acumulando condições históricas favoráveis ao “grande rejuvenescimento”. Essa formulação atualiza tradições político-filosóficas históricas, reforçando a autoridade do PCC diante de desafios globais (Holbig, 2017). No 19.º Congresso, a incorporação do “Pensamento de Xi Jinping” na Constituição elevou o dirigente ao patamar teórico de Mao e Deng (Xinhua, 2017), enquanto a redefinição da contradição principal, o desenvolvimento desequilibrado frente às necessidades sociais (Chen Jin, 2017), fundamenta agendas como a “Prosperidade Comum”, voltada à redução da desigualdade, a civilização ecológica e a regulação de grandes conglomerados tecnológicos (Xi, 2021).

 

Simultaneamente, a China intensificou os esforços de reconstrução narrativa. O Sonho Chinês, formulado em 2012, articula rejuvenescimento nacional, prosperidade moderada até 2021 e modernização até 2049, ampliando as expectativas sociais após décadas de reformas econômicas. Ao mesmo tempo, o declínio relativo da hegemonia norte-americana (Mann, 2006) ressalta as contradições entre o discurso liberal e as ações unilaterais que estão sendo tomadas desde 2017, fortalecendo a competição ideológica em nível mundial. Gramsci oferece ferramenta analítica para compreender como China e EUA disputam hegemonia por meio de narrativas universalistas (Liguori, 2017). Nesse contexto, narrativas ocidentais que atribuem crises globais a “fracassos culturais” (Napoleoni, 2014) são estendidas à China, reforçando estigmas históricos.

 

Nesse cenário, observa-se a retomada por Xi Jinping de mecanismos de “governança revolucionária”: campanhas anticorrupção, combate ao formalismo, retificação de quadros, iniciativas éticas e revitalização da linha de massas (China Daily, 2013; Zhang; Mcghee, 2017). Esse conjunto articula marxismo, nacionalismo e confucionismo para reforçar a coesão política do povo chinês. Desde 2014, tais mecanismos têm sido intensificados diante do “novo normal” econômico e das pressões externas, acompanhados de reformas administrativas (Doyon, 2014) e de novas campanhas disciplinares (Li, 2021).

 

A esse arcabouço articulam-se iniciativas centrais da Nova Era, como o Eight-Point Decision on Improving Party and Government Conduct, lançado em 2012. Voltado a combater o burocratismo, o formalismo, os privilégios e as extravagâncias, o documento estabeleceu diretrizes de austeridade, racionalização administrativa, frugalidade e liderança exemplar. Xi Jinping liderou pessoalmente sua aplicação, adotando comportamentos públicos austeros, que funcionaram como símbolos pedagógicos. O conjunto desencadeou uma ampla campanha de autodepuração partidária, resultando em centenas de milhares de investigações disciplinares e fortalecendo a legitimidade interna do PCC. O Eight-Point Decision tornou-se parte estrutural da Nova Era ao alinhar austeridade, proximidade com o povo e disciplina institucional.

 

3 Estigmatização, Autoapresentação Estratégica e Disputa Discursiva Global

 

A disputa sino-americana envolve não apenas rivalidade estratégica, mas também competição simbólica. A teoria do estigma de Goffman (1963), ampliada por Rivera (2008), permite compreender como a China lida com narrativas depreciativas produzidas pelo Ocidente e ancoradas no orientalismo (Said, 2007) e na modernidade colonial (Fanon, 1994).

 

Sob Jiang Zemin, a teoria das Three Represents ampliou a base social do PCC; sob Hu Jintao, políticas como a “sociedade harmoniosa” e o New Socialist Countryside buscaram reduzir as desigualdades rurais e urbanas (Perry, 2011; Looney, 2015). Internacionalmente, o país iniciou a transição da diretriz denguista de “manter perfil baixo” para uma maior proatividade diplomática (Kerr; Harris; Yaqing, 2008), consolidada na Nova Era. Xi Jinping articula “Sonho Chinês”, “Quatro Abrangentes” (People’s Daily, 2015), “Prosperidade Comum” e a redefinição da contradição principal, reforçando a continuidade, a modernização e a equidade social (Bieler; Morton, 2018; Mulvad, 2018).

 

Nesse contexto, a construção de um poder brando e a comunicação internacional tornam-se centrais para a China se contrapor às narrativas construídas pelo Ocidente. Xi defende, desde 2021, a necessidade de apresentar ao mundo uma “China real, tridimensional e abrangente” (Xinhuanet, 2021). Com a pandemia, termos como “anti-China” retomaram relevância, revelando sensibilidade às tensões geopolíticas, às quais foram confrontadas pela “diplomacia da vacina” e a solidariedade com os países do Sul Global.

 

Desde a pandemia, a China enfrenta novos desafios, como as ações unilaterais dos EUA e as legislações EAGLE Act (2021), CHIPS Act (2022) e IRA Act (2022), que reforçam a contenção geopolítica e criam novos desafios para o engajamento discursivo chinês. Frente a isso, a China investe na construção de uma “grande estrutura de propaganda externa” (CMP, 2021), capaz de disputar sentidos, reduzir o risco de conflito e preservar sua soberania. Nesse contexto, as táticas reputacionais da “Nova Era” operam como instrumentos essenciais do desenvolvimento chinês em um ambiente de competição estratégica.

 

REFERÊNCIAS

BIELER, A.; MORTON, A. D. Global Capitalism, Global War, Global Crisis. New York: Cambridge University Press, 2018.

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LIGUORI, G.; VOZA, P. Dicionário Gramsciano 1926–1937. São Paulo: Boitempo, 2017.

LI, L. Xi’s 2021 political-legal rectification campaign. The China Story, 2021. Disponível em: https://www.thechinastory.org/xis-2021-political-legal-rectification-campaign/. Acesso em: 23 out. 2021.

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