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Relatório do Think Tank: China e América Latina

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Relatório do Think Tank: China e América Latina

ARTIGOS 23 de julho de 2026

 

Por Xu Yanran 

 

1. Sumário Executivo

O cenário geopolítico da América Latina e do Caribe (ALC) é cada vez mais definido por uma intensa competição sistêmica entre os Estados Unidos e a República Popular da China (RPC). Este relatório analisa uma fase de transição crucial, caracterizada por crescentes fricções estruturais.

Com a publicação do terceiro Documento de Política oficial de Pequim sobre a América Latina e o Caribe, a China consolida ativamente sua posição como a principal parceira comercial da América do Sul por meio de investimentos direcionados às tecnologias verdes e aos projetos de infraestrutura. No entanto, essa expansão enfrenta uma resistência considerável, pois os Estados Unidos estão reavivando sua dominância regional por meio de um novo "Corolário Trump", exercendo forte pressão diplomática e econômica.

Ao mesmo tempo, os países da ALC estão se afastando de um alinhamento passivo. O aumento dos déficits comerciais e os problemas econômicos internos agora impulsionam diversos atores regionais a adotarem medidas comerciais defensivas, transformando a dinâmica regional de uma dependência simples em um pragmatismo geoeconômico complexo e de múltiplos vetores.

 

2. Novas Formas de Cooperação

A estratégia diplomática de Pequim em relação à região já não se baseia em um engajamento comercial oportunista, havendo agora uma abordagem geopolítica altamente estruturada e totalmente integrada. O Documento de Política da RPC estabelece uma agenda clara e positiva, centrada nos "Cinco Programas para a Construção de uma Comunidade China-ALC com um Futuro Compartilhado" (Solidariedade, Desenvolvimento, Civilização, Paz e Conectividade entre Povos).

 

 

Gerenciado operacionalmente por meio do Plano de Ação Conjunto CELAC-China, esse arcabouço concentra-se em:

       Alinhamento Multilateral: posicionar a China como uma defensora benigna da governança global e da multipolaridade, ao mesmo tempo em que se opõe explicitamente ao "desacoplamento" (decoupling) por terceiros e à hegemonia unilateral.

       A Política de Uma Só China: as relações diplomáticas e os benefícios econômicos permanecem estritamente condicionados à “Política de Uma Só China”. Pequim busca agora atrair os últimos aliados diplomáticos remanescentes de Taiwan na América Central e no Caribe.

       Cultivo Político: Pequim está lançando esforços substanciais de aproximação política, planejando levar anualmente 300 políticos da ALC à China para ajudar a construir um alinhamento de longo prazo entre as elites.

 

3. Dinâmica Geoeconômica

A relação econômica passa por uma transição estrutural. O extrativismo tradicional ainda domina, mas o capital chinês está se reconfigurando rapidamente para explorar a infraestrutura de base da economia verde global. O comércio bilateral atingiu o recorde de US$ 518 bilhões em 2024, com as empresas estatais chinesas priorizando o controle sobre os corredores logísticos.

O Financiamento Oficial ao Desenvolvimento (ODF) já não se limita mais a veículos de combustão convencional ou a infraestruturas simples. Na verdade, houve uma desaceleração nessas áreas tradicionais, enquanto os investimentos em energia eólica e o transporte elétrico mais do que duplicaram. Montadoras como a BYD e a Geely estão localizando agressivamente suas cadeias de suprimentos de manufatura no Brasil e no México para contornar barreiras tarifárias.

Ao mesmo tempo, o Financiamento Oficial ao Desenvolvimento (ODF) da China afastou-se dos empréstimos diretos aos projetos, passando a injetar liquidez diretamente nos bancos nacionais de desenvolvimento da ALC, transferindo o ônus da conformidade regulatória e da supervisão dos projetos para as instituições locais.

 

 

4. O "Corolário Trump" ou o Ato de Equilíbrio Soberano

O principal limitador da expansão chinesa é uma política externa norte-americana revigorada e altamente coercitiva. Os Estados Unidos apresentaram um "Corolário Trump" à Doutrina Monroe, negando ativamente aos rivais extra-hemisféricos o direito e o acesso a locais estratégicos ou à influência militar na região.

 

Dimensão Geopolítica

Estratégia dos Estados Unidos ("Corolário Trump")

Estratégia da China (3º Documento de Política)

Objetivo Central

Assegurar o hemisfério para os interesses econômicos e de segurança nacional dos EUA.

Estabelecer influência institucional, comercial e regulatória de longo prazo.

Principais Ferramentas

Coerção econômica explícita, revisão de investimentos e intervenções diretas de segurança.

Financiamento soberano, integração da cadeia de suprimentos, infraestrutura digital e espacial.

Foco Estratégico

Afastar empresas da China de canais críticos (ex.: Canal do Panamá).

Construir polos logísticos e técnicos alternativos (p.ex.: Porto de Chancay).

 

Diante dessa pressão de alto nível, os países da ALC tentam um complexo ato de equilíbrio soberano. Alguns países, como o Chile, vêm avançando com projetos de infraestrutura crítica, como cabos submarinos de fibra óptica para conexão com centros de conectividade asiáticos, ao mesmo tempo em que evitam intencionalmente áreas sob jurisdição direta dos EUA.

 

5. Recomendações de Política

É improvável que a região se divida nitidamente em blocos rígidos pró-EUA ou pró-China. Em vez disso, espera-se um cenário altamente fluido e definido caso a caso. Os países da ALC dependem dos EUA para segurança básica e garantias financeiras, mas recorrem à China para investimentos em infraestrutura ou transição ecológica.

À medida que os EUA intensificam sua triagem de investimentos e sanções, os países da ALC parecem destinados a aplicar sistemas de conformidade de "dupla via". Eles promoverão mecanismos locais de compensação financeira (clearing) e redes de pagamento alternativas para proteger seus interesses comerciais essenciais das tensões transpacíficas.

 

Sobre a autora

Xu Yanran é Professora Associada da Universidade Renmin da China, onde também é Diretora do Programa de Dupla Graduação em Governança Global e Assuntos Internacionais. Doutora em Relações Internacionais pela Universidade de Miami (EUA), sua pesquisa centra-se nas relações China-América Latina e na dinâmica triangular China-EUA-América Latina. É autora de China's Strategic Partnerships in Latin America (Lexington Books, 2017).

 

 

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